Fé, Revelação, Querigma e Missão: Elementos da Teologia Fundamental e Expressões na Vida Comunitária e Pessoal dos Cristãos
A teologia constitui-se como uma reflexão narrativa sobre Deus e sobre aquilo que é comunicado por Ele. Isso significa afirmar que toda forma de discurso de caráter logos, cujo objeto é Deus e sua Palavra dirigida ao povo, insere-se no horizonte desse saber. Nesse sentido, alguns conceitos tornam-se fundamentais para orientar e delimitar a compreensão do tipo de teologia em questão. Assim, destacam-se a fé, a revelação, o querigma (anúncio) e a missão, que não se configuram como ideias abstratas, mas produzem profundo impacto na vida comunitária e pessoal dos cristãos.
A fonte primeira do conhecimento teológico é a fé-palavra, pois é ela que funda a razão teológica e se constitui como princípio inteligível da teologia. Esta fé-palavra não é a uma fé dogmática, mas o testemunho, que pode ser conhecido por critérios subjetivos, como experiência de paz, segurança, felicidade, admiração da santidade; e/ou, por via objetiva, por meio dos milagres e profecias. Foi pela necessidade de suscitar a fé que os evangelistas registraram os sinais e prodígios de Jesus por meio do seu testemunho (Biblia, 2002, p. Jo 21, 24; 1Jo 1, 1.3) e também demonstraram como Jesus é aquele que cumpre as profecias por meio de sua vida e história. Esta fé que dá origem a teologia, exige um descentramento antropológico radical e convoca o crente a deslocar sua razão para a Revelação.
A fé não é um sentimento cego, não é um mero ato de confiança; a fé é um ato da inteligência movida pela vontade; a fé é movida por evidências extrínsecas e é livre. A fé tem um primado sob a teologia na medida em que se não crer, não será possível compreender. Nesta liberdade que busca empiricamente explicações por meio da inteligência, encontramos a Revelação como segundo fundamento da teologia, sua verdadeira “alma”.
Revelação “é trazer algo à luz, algo que é levado ao conhecimento, assim como o conteúdo desse processo” (Böttigheimer, 2014, p. 195). O que é revelado é o mistério divino, pois Deus se mostra a si mesmo, seu poder e sua glória, sua vontade e proximidade. Por meio da revelação, Deus vivo se oferece à experiência humana, na realidade e no presente, e, seu ser divino, enquanto poder criativo, dirigente, julgado e redentor. Esta revelação de Deus é confirmada por meio do testemunho neotestamentário que indica ser a revelação uma epifania da realidade salvífica, principalmente no evento de Cristo como nosso Salvador, assassinado e ressuscitado.
Querigma é o anúncio e proclamação da ressurreição do crucificado. N’Ele toda a multiplicidade de revelações foi singularizada e concedeu um acesso transcendental em que “a própria esperança humana transcende a si mesma e assim abre espaço em cujo interior a experiência da ressurreição de Jesus se torna possível” (Böttigheimer, 2014, p. 230).
A missão está intrinsecamente ligada à natureza de Deus e da Revelação. Em Deus, na medida que o Pai envia o Filho ano mundo; o Filho envia os apóstolos em missão para anunciar a Boa Nova e depois enviou, junto com o Pai, o Espírito Santo; e, o Espírito Santo que encoraja os apóstolos para o anúncio a todos os povos.
Os conceitos de Fé, Revelação, Querigma e Missão não se limitam ao campo teórico da teologia, mas constituem fundamentos essenciais da experiência cristã, manifestando-se tanto na vida comunitária quanto na vivência pessoal da fé, orientando práticas, relações e decisões cotidianas. No âmbito comunitário, a fé configura-se como elemento agregador, pois é a partir dela que se constitui a comunhão entre os fiéis, sustentando a vida litúrgica, sacramental e relacional da Igreja. A revelação, por sua vez, manifesta-se na escuta da Palavra, na tradição e na interpretação comunitária da experiência de Deus, permitindo que a comunidade reconheça, no presente, a continuidade do agir divino na história. O querigma, enquanto anúncio fundamental da ressurreição de Cristo, torna-se o núcleo da pregação e da catequese, garantindo a centralidade do evento salvífico na vida da Igreja. Já a missão impulsiona a comunidade para fora de si mesma, orientando-a ao testemunho, à evangelização e ao compromisso com a transformação da realidade.
No plano pessoal, tais conceitos assumem uma dimensão existencial e interior. A fé configura-se como ato livre e racional que orienta as decisões e sustenta a esperança do sujeito diante das contingências da vida. A revelação é experimentada como encontro pessoal com Deus, que interpela o indivíduo em sua consciência e o convoca a uma resposta ética e espiritual. O querigma, ao ser acolhido subjetivamente, torna-se fundamento de sentido, reorganizando a compreensão da própria existência à luz do mistério pascal. Por fim, a missão deixa de ser apenas uma tarefa institucional e passa a ser vivida como vocação pessoal, na qual cada cristão se reconhece como agente do anúncio e testemunha da fé no cotidiano.
Dessa forma, os conceitos de fé, revelação, querigma e missão não apenas estruturam o discurso teológico, mas constituem o próprio dinamismo da vida cristã. Longe de se reduzirem a categorias teóricas, esses elementos operam como mediações fundamentais entre o mistério divino e a existência humana, articulando compreensão, experiência e prática. É precisamente nessa integração entre saber e vida que a teologia encontra sua legitimidade, não como um saber distante, mas como uma reflexão enraizada na realidade concreta dos fiéis. Assim, compreender tais conceitos é, ao mesmo tempo, compreender a própria identidade cristã, que se realiza na tensão fecunda entre escuta, acolhimento, anúncio e envio.
Referências
Biblia. (2002). Bíblia de Jerusalém: Nova edição, revista e ampliada (G. Gorgulho, I. Storniolo, & A. Anderson, Org.; 19o reimpressão [2024]). Paulus.
Böttigheimer, C. (2014). Manual de teologia fundamental: A racionalidade da questão de Deus e da revelação. Editora Vozes.
Bibliografia
Bittencourt, E. (2013). Teologia Fundamental: Matter Ecclesiae (1o ed.). Letra Capital.
Boff, C. (2015). Teoria do Método Teológico (6o ed.). Editora Vozes.
Ferreira, J. A. (2018). Missão da Igreja. Em J. A. Ferreira (Org.), Teologia Sistemática Contemporânea. Fonte Editorial.






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