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Chamados ao Respeito: A Tolerância como Testemunho Cristão

Ao ler uma das palestras de Friedrich Max Müller sobre a introdução à Ciência da Religião, deparei-me com uma reflexão profunda acerca da tolerância religiosa. O eminente filólogo e estudioso das tradições religiosas cita Keshub Chunder Sen, filósofo e reformador indiano, que denuncia a postura daqueles que depreciam outras crenças e ridicularizam seus símbolos sagrados. Sua afirmação — “Nenhum ser criado ou objeto que tenha sido ou possa ser venerado por qualquer outra religião ou seita deve ser ridicularizado — ressoa como um vigoroso manifesto contra toda forma de intolerância.

Essa compreensão nos conduz a uma dimensão ética e espiritual do respeito inter-religioso. A reverência ao sagrado do outro precisa ser ensinada nas igrejas, nos templos, nos terreiros e em todos os espaços de formação religiosa. Trata-se não apenas de uma exigência de civilidade, mas de um imperativo moral que reconhece, na experiência religiosa alheia, a busca sincera pelo Transcendente. Respeitar é reconhecer a dignidade do outro como filho de Deus. À luz das Escrituras, recordo a passagem da visita do Paulo Apóstolo a Atenas (At 17,15-24). Diante de uma cidade marcada por múltiplos cultos e altares dedicados a diversas divindades, Paulo não reage com agressividade nem condenação precipitada. Ao contrário, parte do reconhecimento da religiosidade daquele povo para anunciar o “Deus desconhecido”. Sua atitude revela discernimento pastoral, respeito cultural e abertura ao diálogo — elementos essenciais para uma evangelização autêntica.

Nesse contexto, a futura participação da Igreja Vétero Católica no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) apresenta-se como ocasião providencial para tornar concreta essa vocação ao diálogo. Integrar um organismo ecumênico não significa relativizar a própria fé, mas testemunhá-la com maturidade, promovendo a convivência fraterna entre as diferentes denominações cristãs e incentivando o respeito também às tradições não cristãs. O compromisso com o ecumenismo é, antes de tudo, um compromisso com o Evangelho.

O próprio Cristo nos oferece o modelo. Ele não menosprezou cobradores de impostos, doutores da Lei ou membros de outros grupos religiosos; antes, acolheu, dialogou e transformou pela força do amor. Como nos recorda o Evangelho de João:Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15).

 

Dessa forma, a tolerância religiosa não deve ser compreendida como mera concessão social ou estratégia diplomática, mas como expressão autêntica da caridade cristã. Respeitar o sagrado do outro é testemunha a própria fé com firmeza e humildade, conscientes de que a verdade não se impõe pela violência ou pelo escárnio, mas se revela plenamente no amor.



Referências:


MULLER, F. M. Primeira palestra (trad. Pedro Rodrigues Camelo). REVER - Revista de Estudos da Religião, V. 20, n.1, p. 305-329, 24 de jun. 2020.


 
 
 

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