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A Virgem Maria, além dos muros: a Mãe que contemplou os tesouros “fora da Santa Sé”

Escrevo estas linhas ainda com o coração aquecido pelo meu retiro espiritual do Advento, conduzido pela leitura de Belém (Bethlehem), livro do teólogo e sacerdote Padre Frederick William Faber. Foi uma daquelas leituras que não apenas informam: elas deslocam a alma para um lugar mais alto, onde a oração se torna pensamento e o pensamento se torna adoração.


Confesso que “reencontrei” Faber de modo providencial. Eu o conheci durante meus estudos sobre a Santíssima Trindade, na graduação em Teologia. Seu nome aparecia repetidas vezes, citado por autores e tradições espirituais, e então veio o convite silencioso: “Leia-o por ele mesmo.” E foi Belém que me abriu essa porta, numa edição da Editora Domus Aurea, de 2023.


Quem foi Padre Frederick William Faber


Padre Faber (1814–1863) tem algo de raro: inteligência refinada, poesia no olhar e firmeza doutrinal sem rigidez de coração. Sua história é conhecida também por sua grande travessia espiritual: ordenado no anglicanismo, ligado ao Movimento de Oxford, ele viveu um processo interior profundo e, em 1845, foi recebido na Igreja Católica Romana, num contexto em que esse passo não era simples, nem socialmente confortável.


Depois, com admirável humildade, colocou-se como noviço sob a orientação de John Henry Newman (o mesmo que foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Leão XIV) e mais tarde foi enviado para fundar o Oratório em Londres, tornando-se seu superior.


A tradição romana o recorda como oratoriano, pregador, escritor de espiritualidade e autor de hinos que atravessaram fronteiras, como Faith of Our Fathers, sinal de como sua teologia desceu do púlpito para o canto do povo.


O livro Belém e suas contribuições


O livro Belém, publicado em 1860, é uma obra de espiritualidade teológica em que Padre Frederick William Faber conduz o leitor a contemplar o mistério da Encarnação não como um tema do Natal, mas como um lugar interior onde a fé aprende a adorar. Seu mérito está em unir doutrina e oração numa mesma respiração. Ele não escreve apenas para explicar, mas para levar a alma a ajoelhar com inteligência e amar com reverência. Estruturado em nove capítulos, o texto percorre um arco que começa no alto, no Seio do Pai Eterno, e desce até o chão concreto da história, na gruta da meia noite, nos primeiros adoradores e no Deus Menino, sem perder a consciência de que, em Belém, o céu toca a terra. Nessa travessia, Faber mostra como o Natal já contém, em semente, toda a economia da salvação. O Cristo que nasce pobre é o mesmo que redime. A humildade do presépio já anuncia o amor do Calvário. A alegria visível do Menino é inseparável do desígnio invisível do Pai. Por isso o livro tem uma contribuição teológica muito própria. Ele coloca a Encarnação sob uma luz trinitária e faz o leitor perceber que o nascimento de Jesus não é um episódio isolado, mas uma revelação das perfeições divinas em ação, com a iniciativa do Pai, a obediência amorosa do Filho e a fecundidade do Espírito Santo que opera no silêncio.


Além disso, Faber oferece uma mariologia profundamente cristológica. Ao falar de Maria, ele não a separa de Cristo. Ele a apresenta como o lugar humano onde Deus preparou, com delicadeza e santidade, a morada do Verbo feito carne. Assim, Belém contribui não apenas como leitura de Advento, mas como escola de contemplação. Ele educa o olhar para reconhecer que a fé cristã é verdade a ser confessada e beleza a ser contemplada, e que o caminho para compreender melhor a redenção passa, muitas vezes, por aprender a permanecer mais tempo diante do presépio.


O que mais me tocou: o capítulo “No seio da Virgem Maria”


Agora chego ao ponto que me fez parar, respirar e reler em oração.


No capítulo II, Faber ousa dizer, com delicadeza e profundidade, que o Cristo, estando no Seio do Pai, preparou o seio de Maria para que fosse, por graça, à semelhança daquele mistério de intimidade divina. É nesse contexto que ele afirma que Maria "foi marcada por um caráter indelével por cada uma das Três Pessoas Divinas" (p. 69). E essa marca, para Faber, não é uma metáfora sentimental. Trata-se de teologia espiritual em sua forma mais luminosa, pois apresenta a maternidade de Maria como lugar de ação trinitária.


Ele avança ainda mais: para que o seio materno fosse configurado como um “lugar” digno do Infinito, Maria foi preservada do pecado até em suas menores sombras. Aqui, Faber descreve uma graça altíssima: uma experiência interior que ele associa à visão beatífica, na qual Maria, ainda na história, recebeu privilégios singulares por sua união íntima com a vida trinitária.


E quando ele fala do júbilo de Maria por conter o Deus Encarnado, sua linguagem não banaliza o mistério: ela o reverencia. Ele descreve a alegria de Maria e afirma que "nenhuma criatura jamais experimentou uma alegria igual ao deleite de Maria em possuir o Deus Encarnado dentro de si, em conter em si Aquele que é infinito, em exercer domínio sobre o Onipotente e em estar unida a Ele, que é Bem-aventurança infinita, em uma união tal que a vida d'Ele e a dela eram uma só". (p. 100). Por isso podemos dizer que a luz interior de Maria que permitiu a ela compreender, de modo único, o desígnio da Redenção (p. 102).


Minha maior surpresa, porém, ainda estava por vir. Faber escreve que Maria viu, em verdadeira perspectiva, o futuro da Igreja, suas provações e seus triunfos, e também sua própria influência sobre a doutrina, a devoção e os tesouros exteriores. Em suas palavras, lemos assim: "Ela [Maria] também viu diante e si, em verdadeira perspectiva, o futuro da Igreja, suas provações e seus triunfos, e sua própria e vasta influência, em cada época, sobe a doutrina, a devoção e os tesouros exteriores da santa sé." (p. 103).

Foi aqui que eu parei. Porque essa expressão, "tesouros exteriores", abre um horizonte belíssimo. Que tesouros seriam esses, fora dos muros da Santa Sé, que ainda assim pertencem à beleza católica do Corpo de Cristo?


Eu me permito algumas convicções de fé, como quem contempla e não como quem fecha definições. Penso em ritos, cantos e linguagens de oração que floresceram nas periferias do mundo cristão, onde a fé aprendeu novos sotaques sem perder o centro do Credo. Penso também nas expressões de arte sacra, como ícones, arquitetura, música e símbolos populares, que catequizam olhos e corações e, muitas vezes, alcançam aquilo que discursos não alcançam. Vejo ainda carismas e formas de vida comunitária, monásticas, missionárias e fraternas, que guardam a santidade cotidiana como um tesouro visível. Considero as devoções locais que não competem com a fé, mas a encarnam, porque ensinam um povo a amar Deus com seu próprio modo de ser. E recordo os testemunhos de comunhão possível, encontros e convergências em que a unidade se aproxima não por uniformidade, mas por caridade e verdade.


Quando falo desses tesouros, não ignoro a linguagem muito cuidadosa com que a própria Igreja Católica Romana busca nomear o mistério da comunhão cristã "ferida", porém real e inquestionável. A declaração Dominus Iesus recorda que há Igrejas que, embora não estejam em plena comunhão com Roma, permanecem unidas por vínculos muito estreitos, como a sucessão apostólica e uma Eucaristia válida, e por isso são chamadas de verdadeiras Igrejas particulares, com a presença e ação da Igreja de Cristo nelas, ainda que falte a plena comunhão. Ao mesmo tempo, o mesmo texto distingue as comunidades eclesiais que não preservaram o episcopado válido e a substância íntegra do mistério eucarístico, afirmando que não são Igrejas em sentido próprio, mas reconhecendo que os batizados nelas estão incorporados a Cristo e vivem uma comunhão real, ainda que imperfeita, que por sua natureza tende à plenitude.


Com visão mais ampla que a Dominus Iesus e muita semelhança ao olhar da Virgem Maria, como descrita pelo Padre Faber, contemplo com respeito e gratidão, para as tradições ortodoxas, com sua beleza litúrgica e teologia do mistério; para o anglicanismo, de onde veio o próprio Faber, como sinais históricos de busca, de herança cristã e de sede de unidade, cada qual com sua marca, sua dor e sua contribuição. Aos Luteranos e aos irmãos pentecostais que buscam o reavivar do Espírito Santo como tesouro máximo.


Porém, com especial carinho, ouso dizer que o Veterocatolicismo pode ser lido como um desses tesouros. Não como bandeira contra alguém, nem como instrumento de separação, mas como memória viva de que a catolicidade é maior do que um centro geográfico. Ela é a amplitude do Corpo de Cristo. Onde há fé apostólica, zelo sacramental, caridade pastoral, sentido conciliar, busca sincera de unidade e reverência à Tradição recebida, ali também há um brilho, um tesouro que, embora exterior aos muros, não é exterior ao Mistério.


Considerações Finais: Maria, a beleza plural do Corpo de Cristo


Considerando a iluminação que o Padre Faber, e eu creio que há muita luz no que ele viu, então Maria contemplou, desde cedo, todas as formas de beleza que o cristianismo manifestaria na história, com doutrinas defendidas com santidade, devoções amadurecidas no sofrimento, culturas evangelizadas sem serem anuladas e comunidades pequenas guardando uma fé imensa.


Por isso termino com uma convicção simples e ardente. Maria é a intercessora dessa diversidade bela que é o Corpo de Cristo. Ela não é símbolo de fragmentação, ela é mãe de comunhão. Nela, o ecumenismo deixa de ser estratégia e volta a ser o que precisa ser, oração pela unidade, conversão do coração e reconhecimento humilde de que Deus espalha sinais de beleza onde quer.


Maria, que trouxe o Verbo no seio, ensina a Igreja a trazer Cristo no coração e a reconhecer, com reverência, os tesouros que Ele semeou fora, para que tudo, um dia, seja plenamente dentro, dentro da mesma caridade, da mesma fé, da mesma esperança e da mesma unidade perfeita.


Referência


FABER, Frederick William. Belém. Aracaju, SE: Editora Domus Aurea, 2025.




Dom Diogo

Arcebispo Primaz da IVCnB e Bispo do Rio de Janeiro



Oh, Virgem Maria, que contemplastes todas os tesouros fora da Santa Sé, rogai pelos seus filhos veterocatólicos.



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SOBRE NÓS

No Brasil desde 1932, através da missão polonesa da Igreja Antigo Católica da Polônia, em Ponta Grossa /PR, pelas mãos do Padre Bartnicki. Após o incêndio criminoso de 1934, só em 2019, esta Igreja retornou a Utrecht para solicitar seu reconhecimento.

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