Hoje, 1º de janeiro, não é “Santa Maria, Mãe de Deus” em nosso calendário Veterocatólico
- Arquidiocese Rio de Janeiro

- 1 de jan.
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Em muitas comunidades, 1º de janeiro é conhecido como a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Na espiritualidade e na identidade vétero-católica, porém, o foco principal do dia recai na Circuncisão do Senhor e no Santíssimo Nome de Jesus, isto é, no “oitavo dia” do Natal, quando o Menino, obediente à Lei, recebe o Nome que lhe fora anunciado (Lc 2,21). Este texto explica, em sequência, duas afirmações que caminham juntas: primeiro, que aceitamos integralmente o dogma de Maria como Theotókos, definido no Concílio de Éfeso (Concílio de Éfeso, 431/1894); segundo, que nossa opção litúrgica por hoje expressa a missão vétero-católica de retorno à Igreja Primitiva como espiritualidade, identidade e compromisso concreto de viver o cristianismo a partir de suas formas mais antigas, sem depender de reconfigurações modernas do calendário (Paulo VI, 1969).
Aceitamos plenamente Maria como Theotókos: Éfeso (431) e a unidade pessoal de Cristo
A confissão de Maria como Theotókos (Mãe de Deus) não é, na raiz, um “exagero mariano”, mas uma garantia cristológica: protege a fé de que Jesus Cristo é um único sujeito, não dois. O Concílio de Éfeso proclamou, contra a crise nestoriana, que o nascido de Maria é o próprio Emanuel, verdadeiramente Deus, e por isso a Virgem pode ser chamada, com propriedade, de Mãe de Deus (Concílio de Éfeso, 431/1894). O núcleo da definição é simples e imenso: Jesus é uma única Pessoa divina, o Verbo eterno, que assumiu realmente a natureza humana no seio de Maria; assim, quando Maria dá à luz “segundo a carne”, ela dá à luz aquele mesmo que é Deus desde sempre (Concílio de Éfeso, 431/1894).
Essa formulação impede que se pense Cristo como uma espécie de “parceria” entre um homem e Deus. Não: o Verbo é o sujeito de tudo o que Jesus é e faz; e a humanidade que Ele assume não é um “outro alguém”, mas a humanidade real do Filho eterno feito homem (Concílio de Éfeso, 431/1894).
Por que Nestório queria “Christotókos” e por que a Igreja recusou essa limitação
Nestório, patriarca de Constantinopla, preferia o título Christotókos (“Mãe de Cristo”), para restringir a maternidade de Maria à natureza humana de Jesus. O problema, como a Igreja viu com clareza, é que essa restrição facilmente sugere uma divisão interna no próprio Cristo, como se houvesse “dois sujeitos”: um humano que nasce e sofre, e outro divino que apenas “acompanha” (Concílio de Éfeso, 431/1894). Éfeso rejeita essa deriva ao insistir que o Cristo é um só, Deus e homem, com unidade pessoal real; por isso o título Theotókos é uma forma de confessar que o Filho de Maria é o próprio Filho eterno do Pai (Concílio de Éfeso, 431/1894).
A Igreja antiga já rezava e confessava esse conteúdo: Padres e hinos
Antes mesmo de Éfeso, a fé que ele soleniza já se manifestava com força na tradição. São Gregório de Nazianzo é um testemunho particularmente incisivo: ao combater erros cristológicos, afirma que quem não reconhece Maria como Mãe de Deus “se separa da divindade”, deixando claro que se trata de um ponto ligado diretamente à identidade do Salvador (Gregório de Nazianzo, 4º séc./1894).
Em autores ligados ao universo grego, o título aparece também com naturalidade devocional. Há textos patrísticos em que Maria é diretamente nomeada Theotókos, e esse vocabulário se torna cada vez mais comum na recepção litúrgica do Oriente (Crisóstomo, séc. IV–V; ver tradições textuais). Já em Santo Agostinho, mesmo quando a linguagem latina prefere outras construções, o conteúdo teológico permanece: Cristo é Deus verdadeiro que entra realmente no tempo por meio de Maria, e Agostinho o exprime com uma frase de grande densidade: Ele foi formado nela, “a quem Ele mesmo formou”, preservando ao mesmo tempo a iniciativa divina e a realidade plena da encarnação (Agostinho, séc. IV–V/1888).
Quanto a listas que citam Orígenes e Dionísio de Alexandria como uso explícito de “Theotókos” nos três primeiros séculos, é prudente qualificar: a tradição e alguns testemunhos tardios atribuem a Orígenes o termo, mas pesquisadores observam que a forma inequívoca não aparece com a mesma clareza nas obras sobreviventes, ainda que a ideia cristológica que sustenta o título esteja presente em linhas antigas (Pearse, 2023; Catholic Culture, 2016). Para Dionísio, a situação é semelhante: há referências históricas e atribuições, mas a análise depende do estado da transmissão textual; o que permanece sólido é que o ambiente alexandrino já articulava, antes de 431, a unidade do Verbo encarnado que Éfeso definirá de modo normativo (Artemi, 2012).
Um testemunho litúrgico de enorme relevância é o Sub tuum praesidium (“À vossa proteção/compaixão”), preservado em papiro e considerado um dos mais antigos textos de oração mariana conhecidos: nele, Maria é invocada como Mãe de Deus, o que mostra como a lex orandi já carregava, em forma simples e popular, a lex credendi (John Rylands Library, s.d.). Do mesmo modo, a tradição oriental mantém o título como linguagem cotidiana em hinos e liturgias, como no Axion Estin, que chama a Virgem diretamente de Theotókos (Orthodox Church in America, s.d.).
Por que, então, o calendário romano moderno faz de 1º de janeiro a Solenidade de “Maria, Mãe de Deus”
No calendário romano atualmente difundido, 1º de janeiro é a Solenidade de Maria, Mãe de Deus, encerrando a Oitava do Natal. A forma contemporânea do Calendário Romano foi aprovada na reforma de Paulo VI, especialmente por meio do motu proprio Mysterii Paschalis, que reorganiza o ano litúrgico e o calendário, com implementação geral a partir de 1970 (Paulo VI, 1969). Nesse mesmo horizonte pós-conciliar, Paulo VI instituiu também o Dia Mundial da Paz, celebrado em 1º de janeiro a partir de 1968 (Paulo VI, 1967).
É precisamente aqui que destacamos, com serenidade e clareza, o traço veterocatólico: retornar à Igreja Primitiva não significa negar dogmas antigos; significa, muitas vezes, recusar que a forma moderna seja tratada como a única forma possível. Ao recuperar o acento antigo do dia, o veterocatolicismo expressa uma espiritualidade que se reconhece como continuidade com a memória mais antiga do Ocidente cristão, sem necessidade de “novidades” disciplinares como selo de identidade.
A solenidade vétero-católica de hoje: Circuncisão do Senhor e Santíssimo Nome de Jesus
A nossa celebração principal de hoje é a Circuncisão do Senhor, inseparável do Santíssimo Nome de Jesus. O evangelho é explícito: ao oitavo dia, Jesus se submete ao rito prescrito na Aliança e recebe o Nome (Lc 2,21). O sentido litúrgico é profundamente teológico: o Cristo entra na Lei, não para ser preso por ela, mas para cumpri-la e, no mistério pascal, libertar-nos da servidão da Lei pela graça. A Circuncisão, portanto, não é um detalhe “cultural” do passado: é um anúncio de que o Salvador assume nossa condição histórica com plena realidade, e que sua obediência tem caráter redentor. Esse tema é documentado na tradição ocidental por séculos, e aparece também em tradições cristãs que mantêm o dia associado ao Nome e à Circuncisão, incluindo calendários anglicanos (Catholic Encyclopedia, 1913; The Episcopal Church, s.d.; Liturgical Calendar, s.d.).
Sentido ascético e místico: devoção ao Nome e à Sagrada Humanidade, com Pe. Faber
Na chave ascética e mística, a Circuncisão e o Santíssimo Nome nos levam a um ponto essencial: a devoção cristã deve amar, com realismo, a Sagrada Humanidade de Jesus Cristo, sem separar sua humanidade de sua divindade. O Nome de Jesus concentra fé, confiança e adoração, e educa a oração para a simplicidade do Evangelho. Dentro da tradição espiritual ocidental, Frederick W. Faber desenvolve meditações em torno do Santo Nome, tratando-o como escola de amor e de interioridade cristã, sempre ancorada no mistério concreto do Deus feito homem (Faber, 1854/1863).
Em outro texto e momento, poderemos nos aprofundar nesta temática.
Considerações finais
Assim, a posição vétero-católica é coesa e antiga: não celebramos hoje, como solenidade principal, “Santa Maria, Mãe de Deus”, mas a Circuncisão do Senhor e o Santíssimo Nome de Jesus; ao mesmo tempo, afirmamos com absoluta clareza que Maria é verdadeiramente Theotókos, porque Jesus Cristo é uma única Pessoa divina, o Verbo eterno, feito plenamente homem no seio da Virgem — exatamente como definiu Éfeso (Concílio de Éfeso, 431/1894; Gregório de Nazianzo, 4º séc./1894).
Esse “retorno” não é capricho: é espiritualidade, identidade e compromisso de viver o cristianismo com raízes, lembrando que a Igreja antiga soube honrar Maria como Teótoco sem perder, no dia de hoje, o foco na humildade obediente do Verbo encarnado, que entra na Lei para nos conduzir à liberdade da graça.
Referências
Agostinho de Hipona. (1888). Tractates on the Gospel of John (P. Schaff, Ed.). In Nicene and Post-Nicene Fathers (1st series, Vol. 7). Christian Literature Publishing Co. (Obra original séc. IV–V).
Artemi, E. (2012). Cyril of Alexandria’s critique of the term Theotokos and its usage in Nestorius’ Christology. (Artigo acadêmico em base SciELO).
Catholic Encyclopedia. (1913). Feast of the Circumcision. In The Catholic Encyclopedia. Robert Appleton Company.
Catholic Culture. (2016). Church Fathers: Origen’s theology (nota sobre a tradição do termo “Theotokos” em testemunhos históricos). (Artigo de referência).
Concílio de Éfeso. (431/1894). Council of Ephesus (A.D. 431). In P. Schaff & H. Wace (Eds.), Nicene and Post-Nicene Fathers (2nd series, Vol. 14). Christian Literature Publishing Co.
Faber, F. W. (1854/1863). Notes on doctrinal and spiritual subjects (inclui seções devocionais sobre o Santo Nome). (Edição digital de obra do séc. XIX).
Gregório de Nazianzo. (4º séc./1894). Letter 101: To Cledonius, against Apollinarius. In P. Schaff & H. Wace (Eds.), Nicene and Post-Nicene Fathers (2nd series, Vol. 7). Christian Literature Publishing Co.
John Rylands Research Institute and Library. (s.d.). Prayer to Mary (Greek P 470): Sub tuum praesidium. University of Manchester (Coleções digitais).
Liturgical Calendar. (s.d.). The Holy Name of Our Lord Jesus Christ (entrada de calendário anglicano/episcopal).
Orthodox Church in America. (s.d.). Hymn to the Theotokos (“It is truly meet…” / Axion Estin).
Paulo VI. (1967). Mensagem para a celebração do I Dia Mundial da Paz (1º de janeiro de 1968). Libreria Editrice Vaticana.
Paulo VI. (1969). Mysterii Paschalis (Motu proprio). Libreria Editrice Vaticana.
Pearse, R. (2023). Theotokos: Did Origen use the term “Theotokos” for Mary? (Nota de pesquisa e crítica textual em blog acadêmico).





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